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sábado, 31 de dezembro de 2011

Depoimento do Zé da Terra


Eu me chamo José Francisco da Silva, mais na minha terrinha me chamavam de Zé da Terra, me chamavam assim porque eu plantava de um tudo, mandioca, feijão, milho... Como José é um nome comum, ficou Zé da Terra. Tinha orgulho desse nome. Bons tempos aqueles. A gente era feliz e não sabia.
Hoje, não sou mais feliz, tudo por causa da bebida. Essa praga que o homem inventou, acho que isso é coisa do Diabo, do Coisa Ruim. Comecei a beber pra poder esquecer da fome, eram 15 bocas para alimentar, mais a minha esposa Maria da Silva, pessoal a chamava de Maria do Zé da Terra, cidade pequena é assim.
Saudades tenho dos meus filhos, faz anos que num vejo eles. Mas eu tenho mais saudades é da minha Maria, uma pessoa muito boa, era um anjo pra mim, me fazia de um tudo. Morreu de desgosto.Eu chegava bêbado em casa e acabava batendo nos meus filhos, ela vinha proteger eles, então batia nela.  Hoje sinto uma vergonha de dizer isso, morreu nova, tinha 45anos, ela se foi porque não aguentava mais sofrer.  
Infelizmente essa coisa ruim, a bebida, chegou até no meu filho mais velho, bebeu tanto que chegou a passar mal, foi levado pro hospital, morreu também. Ele Teve uma tal de Overdose. Foi fazer companhia pra Maria, os dois devem de ta la no céu, vendo o fracassado aqui embaixo. Vergonha, agora eu sei o que é, uma sensação ruim. Num gosto dessa parte do meu passado.
Meus outros filhos se espalharam nesse mundão de Deus, nem sei se tão vivos. Vim pra cidade grande tentar ganhar a vida. Virei foi mendigo. Não me chamam mais de Zé da Terra, agora poucos sabem meu nome, passo despercebido nessa multidão. Hoje me chamam de Zé da Praça, a praça é onde eu fico o tempo todo, então, ficou Zé da Praça.
Por isso digo minha gente, larguem a bebida, ela é do Coisa Ruim, acabou com minha vida. Agora vamos deixar pra terminar essa prosa outro dia, pois parece que vai chover, tenho que arrumar um lugar pra passar a noite. 


Guilherme Belmiro 


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